quarta-feira, 22 de Julho de 2009

João de Barro


Desde cedo está ali. Passa o dia com os pés no ar sentado na sua cadeirinha. Na frente parede branca ou bege, vai do gosto do freguês. Atrás o céu azul devora. Em baixo a vida que parece maquete.
Ele vai todo dia feito pássaro, sem árvore. Trabalha só. É quase invisível. As pessoas só o percebem quando abrem a janela e lá está, feito um pombo sujo sentado na sua ripa de madeira, com a lata ao lado. Elas ignoram como aos pombos, fecham a janela para evitar contato. Ele não liga, trabalha com isso não é de hoje.
Às vezes na pausa não desce. Sobe com a lata, pincel e marmita. E se põe ao contrário. Olhando o céu que lhe é tão próximo. Lá em baixo a insignificância das pessoas. São como formiguinhas que são milhões, e vistas dali, são todas operárias. Passando num passo apressado de um lado ao outro, de maneira aparentemente ordenada.
Ali de cima ele se sente ave. Livre, mas sem vôo rasante. Sente a tranquilidade do silêncio e o vento que bate de leve e movimenta a corda que o sustenta. O sol por vezes castiga. Não tem toldo nem sombra para se esconder. Ele quer árvore com sombra e com galho. Árvore com folha e com flor. Ele é pássaro sem ninho. No chão não reconhece moradia. Mas amanhã voa, e ele que era só João vira João de Barro.

copo vazio

Foi triste como tudo começou. Era puro descontentamento. Estava mais pesada do que o normal, mais feia do que queria e com isso se fechou.
Há dias que havia tomado a decisão. Queria mudar, mas não sabia como, nem por onde começar, então há dias que se olhava no espelho, procurando se memorizar… fez várias fotos. De todos os ângulos. Das costas, de lado, de frente. Parava petrificada no espelho. Não acreditava no que via. A cada dia crescia mais de um milímetro. Ela acompanhava, quase como que vendo o crescimento. O movimento da pele de esticar, um pouquinho a cada segundo.
Às vezes parava horas em frente ao espelho. E ali ficava em pé… a olhar. Comprou uma lupa para acompanhar o movimento. Seu próprio movimento que ela não controlava. E crescia um centímetro por semana. Ela começou a observar. A se observar vinte e quatro horas por dia. O seu próprio movimento. Era a pele que ia abrindo sulcos. Pequenos sulcos. E ela calculava. Daqui dois anos vira uma ruga. Pára estática. Petrificada, queria se conservar com formol. Queria ser pedra, que diminui com o tempo. Mas crescia mais de um milímetro a cada dia. E os fios acompanhavam. Todos. E ela olhava com lupa, na raiz. E via, como uma onda, milhares de fios se movimentando, minimamente, todos juntos.. crescendo.
E ela ia se observando nos pormenores. No atrás da orelha e dentro do umbigo…crescendo, cada vez mais fundo. Com o passar dos anos virou enorme. As rugas eram dobras, e o cabelo já ia nas ancas. Era uma figura estranha. Só comia e se olhava. E crescia. O pé já calçava 42, e as roupas de meio ano atrás não cabiam. Ela ia virando massa de pão. E ia se contorcendo na busca dos pormenores. Era dobra que entrava em dobra. Como uma cobra gorda que se enrosca em si mesma. Se transformou em massa. A cabeça já se confundia com a barriga. E ela só olhava o próprio umbigo. Era a única dona do seu nariz, perdido no meio da massa.
A boca já não abria, já não se encontrava. Ela devorava a si própria. As mãos faziam o reconhecimento do próprio corpo, massa disforme. E ela que já foi gente agora era pão cru, pronto para ir ao forno.
Viu as fotos que fez de si própria, antes de se fechar num casulo, do qual ela era verdadeira lesma. Nas fotos a imagem era de alguém nem bonita, nem feia e nem triste, nem feliz. Alguém que tinha forma. E quis ser algo, algo verdadeiramente bonito. Rolou para um lado e para o outro. Se apalpou brincando de massinha com o próprio corpo e se ergueu casa. Simples porém bonita, com porta e janela, se fez oca por dentro, abraçando o grande vazio que dela fez moradia.

sábado, 27 de Junho de 2009

A máquina

Ganhou o objeto no dia de seu aniversário, e desde então sempre que via algo interessante tirava do bolso, ligava, olhava na telinha e apertava o botão. Pronto registrava ali o que queria guardar para sempre. Em dois anos aquilo que ele queria guardar para sempre passou das 1000 coisas e em três das 10000. Com o tempo ele já não sabia mais o que afinal queria guardar. E de fato percebeu que não tinha guardado nada. Ao final do quarto ano a ação de tirar do bolso, ligar, olhar na telinha e apertar o botão se tornou um ato quase como respirar. A vida se passava por ali. Reduzida a um quadrado. Ele dizia que só assim conseguia perceber o mundo, ali restrito cercado por aquele quadradinho e congelado durante um segundo, para dali ficar registrado em imagens que ele demoraria pelo menos um ano para observá-las todas.
Quando sua coleção beirou 100.000 o braço já ficava naturalmente dobrado para cima na altura dos olhos, duro como um manequim. Na mão o objeto, com a telinha quadrada por onde ele via o mundo. Não olhava mais nos olhos das pessoas. Criou aquela barreira. O seu tempo passou a ser outro. Necessitava sempre de um segundo de congelamento e cada vez mais a comunicação se fez mais difícil. O registro não ficava na sua memória, e sim na do objeto e nos vários cartões de vários gigabites adquiridos nos últimos anos. Tinha se tornado um garoto sem memória, e sem vivência. Vivia para o objeto. Era como se ele fosse uma extensão daquilo até desaprender a ver a vida só com olhos. Um dia o objeto ficou sem bateria. O quadradinho ficou preto. O menino que estava no meio da multidão ficou ali, por alguns momentos inerte, esperando esse um segundo eterno de registro da escuridão. Mas o segundo demorou anos, uma vida. E ele que há muito tinha perdido a memória, se desligou de vez do mundo.

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

secará

Domingo de manhã, Sol forte vindo da janela aberta, sem cortina, sem veneziana, sem nada. Entrada direta no rosto de quem dorme. À claridade já se habituou. Ao calor quase, mas ao sol que queima como maçarico nem perto disso. Acorda com sono de noite bem dormida que pede bis. Sonhos bons de sonhar, mas que não lembra o tema.
Não são nem nove horas, e ele não dormiu nem seis. A cabeça ainda roda da noite anterior. E pesa. A voz sai rouca, e o bafo é certeiro. Álcool. O rosto de travesseiro amassado reflete no espelho. A imagem não é bonita. Senta na tampa, escova o dente e por instantes mínimos cochila. A baba verde escorre, acorda.
Deita de novo, mas não dá. No conjugado, sem cortina não dá. O sol cada vez mais toma mais espaço dos 3 por 8. O Sol entra e ele sai. O céu é azul, e quase cega.
Anda de chinelo. É domingo dia de bermuda e feira. De blusa branca sai para evitar o sol. A pele seca e em 20 minutos já arde. Debaixo do braço um círculo. Gotas nas costas escorrem.
Faz hora para ver se o sol vai embora. Apartamento pequeno é assim, filial do inferno. Na rua a brisa ajuda. Só 35 minutos.
Ele vai dar uma volta, comprar fruta e flores. Ele gosta de flores. Do cheiro. Chega na feira. Ovo e uva boa. Se demora na escolha, 50 minutos. Ele entende da posição do sol, em 3 horas ele vai visitar outros. Passa para o peixe.
Compra para mais tarde uma salada, alface, tomate e cebola. Alface só crocante quando já passa uma e meia.
A feira está vazia, ele e mais dez que vão e voltam, todos a passos lentos, que fingem procurar o maracujá e depois cheiram todas as mangas. Todos conjugados ali naquele espaço. Fruta, gente, suor e suco. O calor insuportável. Vai pela sombra, sempre. O sol já mais para esquerda. Começa a voltar pela direita, rua sem árvore, do chão sai fumacinha, que faz água, filme de bang bang. Uma brisa seca a gota da testa, é passageira. Na última barraca compra flores, para celebrar a primavera.
Entra no prédio, sobe as escadas, mora no segundo e não gosta de elevador. Procura a chave no alface. Está no saco dos pepinos. Roda três vezes quando o relógio batia treze.
E entra de retorno. Tudo estava seco. A humidade não existia. Os papéis amarelados, a poltroninha desbotada. Os livros vermelhos alaranjavam. A casa era a mesma de 3 horas atrás, mas secou sem a cortina que deixou para lavar. Sem fungo, sem alergia, sem brilho no taco mas com um sol de fim de primavera. Ali é vida sem vida. A claridade emociona mas as flores, em dois tempos, murcham.

no avarandado

Eram irmãs. Desde o nascimento da segunda já se iam 72 anos. A mais velha próxima da casa dos 80. O primeiro “enta” que lhe pesava, na idade, na mente e no corpo.
Foi mãe da imigração. Foi com família, filha no colo, filho na mão. O marido ia a frente, mas sem predê-lo de vista. Iam todos, mas dessa árvore genealógica só voltou raiz.
Tornou para a casa como uma filha órfã. Um ano depois voltou a irmã, outra que se fez batata na terra onde nasceu.
Ficaram num apartamento. O mesmo da infância. O mesmo onde estão até hoje na esperança da correspondência não ter erro para chegar. Mas não chega. Dos frutos nenhuma notícia. Do vento, nenhuma semente.
A mais velha, corcunda, barriguda mas de mãos delicadas e cabelo sempre penteado foi costureira em tempos de agulha e mão. A máquina quando veio foi um alívio e ela balançava o pedal de ferro como quem balança um berço. Dali saíam todas as encomendas do bairro, fosse lá onde fosse. Mas a industria cresceu e de reparos acabou ficando ela, retalhada por uma vida sem pouso certo. A costura virou cicatriz, de quem trabalhou para casa e para fora. Em casa dela, casa de ferreiro o espeto era de ferro. Fino, pequeno e pontiagudo.
E hoje vestida de camisola, ao lado da irmã, olhava pela varanda. No varal um vestido rosa pendurado. Tecido ruim, e reparos feitos para a vizinha, lavado à seco para parecer de pouco uso.
E elas que mentem ao tempo para ver se ele esquece de passar vão ficando ali, apoiadas num gradil de ferro vendo de cima o passo de quem passa apressado e nunca pára para ver que a vida passa.

quinta-feira, 7 de Maio de 2009

485

Chegou cedo, de calça passada, camisa esticadinha. O sapato velho, ainda escondia a idade. As unhas caprichadas, limpas e bem cortadas. Chegou cedo. Tomou café na esquina, na rua, um bolinho e dois dedinhos no copo de vidro, copo americano, ideal pra cerveja. O bolo fubá. È dona Maria que vende, toda manhã pega o carro velho, quase pó, e vai de encontro no ponto. Ali o público é certo, e o produto vai rápido. Seis horas entra no ônibus que já aprendeu a ser seu. Sua segunda casa. No seu banco já colocou enfeite e um pano bordado pela mulher. Na caixa de dinheiro o adesivo é flamengo, é urubu. Organiza moedas e notas, o elástico é companheiro. Seis e quinze começa a primeira de um dia cheio. Terminal da Penha, seis e meia Fundão. Nesse primeiro não vai quase ninguém. 7 e vinte general Osório. Quase oito Santa Bárbara. Ninguém vai para o Catumbi, o ônibus passa reto. No ponto alguém estica o dedo, o do meio, para o ônibus que não parou. Lá dentro mais de 40 em pé. Ao lado do motorista vão nove sardinhas e o ônibus vai carregando gado. 8 e quinze linha vermelha. Nas engenharias a maioria desce.
9 horas o mesmo passa, na frente general osório. Vai vazio. Onze horas volta cheio. No ponto ao meio dia sobe uma que veio no das oito do Santa Bárbara. O assunto: professor faltou. Ela dorme com o sebo desenhando no vidro, e a cabeça acusando um torcicolo. No colo pasta e mochila. No ônibus só vai ela e mais uns 20. Poucos em pé.
Ele aproveita a calmaria, organiza elásticos e brinca de contar moedas. Organiza-as em blocos de um e embrulha com durex. Guarda tudo e pensa no domingo, Flamengo campeão. Agradece ao urubu fazendo um afago no adesivo. Do bolso tira uma bananinha, esses doces 5 por um, que um vendedor que subiu às 10 lhe ofereceu. Sente um pingo escorrer nas costas, e o sol entrando forte pela janela que só abre metade.
Na entrada da linha vermelha entram três. Ele ainda come bananinha. Na catraca espera a moeda ou o cartão. Mas a passagem é a arma. O doce 5 por um fica amargo. A moça do sebo no vidro acorda no susto. Procura na bolsa o celular com câmera, mp3 mas que só recebe, e o dinheiro que sobrou do almoço. É tudo o que tem. Quem vai em pé já esvaziou os bolsos. Alguns tremem. Um estalo. Ele do sapato velho, engole a última das cinco, passa o dedo pelo urubu enquanto estica o outro braço que tem nas mãos notas organizadas em blocos de 50 presas com elástico amarelo. O corpo pesa, e na camisa esticadinha a mancha vermelha. Foi mais um que foi com medo.

domingo, 26 de Abril de 2009

ajuste

Magro, alto, descompassado. O óculos fundo de garrafa e as costas levemente curvadas. Passava os dias sentado na cadeira de rodinhas azuis que favorece o descanso. Mas ele ficava sentado sem encosto, curvado para baixo, lendo as letras miudinhas com tamanha atenção. De todas as vezes que o observei nunca o vi pregar o olho.
Ele chega cedo, todo mundo o conhece, mas a figura impressiona pela feiura, pelo andar, e pelo ar sério. Talvez impressiona não, o torna animal. Um ser em extinção.
A camisa com a marca do uso nas costas geralmente é azul em tom pastel e as calças são sempre bejes com cinto marcando acima do umbigo.
Durante quase quatro anos também o achei bicho, como a maioria dos funcionários. Ele nunca emitia palavras, sempre sons imprecisos, sempre andava na sua dança e lia exaustivamente. Para mim que durante todas as minhas idas encontrava com ele, achava que já fazia parte, era como se ele exercesse ali o papel de leitor exemplar. Entra, sabe o que quer, pega, entra na sala de leitura, senta, e lê um livro de cabo a rabo por dia. As vezes penso se ele já não os lê pela terceira vez.
Vai sempre sozinho e nunca conversa. Nem assuntos banais de elevador. No fundo acho que ele é incapaz de coisas banais. Ou talvez de escolher o que dizer, que palavra usar. Me pergunto quantas maneiras existem para cumprimentar, segundo o que ele vê e lê nos livros. Mas a verdade é que não sei se desaprendeu a falar. Se tem vida sem letra impressa.
O fato é que desde que a biblioteca ali está ele está também. Todos os dias. Me lembro que uma única vez ele faltou. Todos deram pela falta, mas ninguém tinha telefone, nem o nome era sabido. No dia seguinte ele reapareceu como se nada tivesse acontecido não deu satisfação. Fora esse dia nunca mais soube nem dei pela sua ausência.
Um dia já era quase nove, na sala de leitura só havia ele e mais três, que já juntavam os livros para se levantar. Ele sempre tranquilo nesse dia faz o mesmo. Faltando 5 minutos recolheu a ponta da caneta num clique, pendurou no bolso da camisa, fechou o caderno onde sempre anotava poucas palavras, fechou o livro cuidadosamente, e colocou caderno sobre livro. Apoiou as duas mãos na mesa empurrou a cadeira para trás, projetou o corpo para frente, mas não levantou. Repetiu o mesmo procedimento. Trouxe a cadeira para perto, apoiou as duas mãos, empurrou a cadeira para trás, jogou o peso para frente e nada. Repetiu o procedimento mais umas 3 vezes mas permaneceu sentado. Não conseguia levantar.
Os dedos da mão começaram a se unir, os pés começaram a curvar, e o listrado da camisa foi ficando cada vez mais parecido com o estofado da cadeira. A calça ia pelo mesmo caminho. A cintura afinava, e o braço endurecia em 90 graus. Os olhos ainda ficaram ali, e o óculos também, permitindo que ele assistisse a própria vida. Pela primeira vez ele disse uma palavra em quase alto e bom som.
Não! E foi o tempo de virar cadeira.