
Desde cedo está ali. Passa o dia com os pés no ar sentado na sua cadeirinha. Na frente parede branca ou bege, vai do gosto do freguês. Atrás o céu azul devora. Em baixo a vida que parece maquete.
Ele vai todo dia feito pássaro, sem árvore. Trabalha só. É quase invisível. As pessoas só o percebem quando abrem a janela e lá está, feito um pombo sujo sentado na sua ripa de madeira, com a lata ao lado. Elas ignoram como aos pombos, fecham a janela para evitar contato. Ele não liga, trabalha com isso não é de hoje.
Às vezes na pausa não desce. Sobe com a lata, pincel e marmita. E se põe ao contrário. Olhando o céu que lhe é tão próximo. Lá em baixo a insignificância das pessoas. São como formiguinhas que são milhões, e vistas dali, são todas operárias. Passando num passo apressado de um lado ao outro, de maneira aparentemente ordenada.
Ali de cima ele se sente ave. Livre, mas sem vôo rasante. Sente a tranquilidade do silêncio e o vento que bate de leve e movimenta a corda que o sustenta. O sol por vezes castiga. Não tem toldo nem sombra para se esconder. Ele quer árvore com sombra e com galho. Árvore com folha e com flor. Ele é pássaro sem ninho. No chão não reconhece moradia. Mas amanhã voa, e ele que era só João vira João de Barro.