Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
laranja-lima
Cantarola. Pedala em falso e abraça o chão de lado. Joelho, ombro, coração e mãos ralados. A pele sai, esfolada, cansada, procurando uma renovação. As pessoas dizem que se cai de maduro. A fruta cai no chão, cai na terra e da queda, terra mais fruta, produzem um algo outro... novo. Sai do braço que a até então a abraçava. Vôo corajoso. Mas só madura é que faz. Quem é que sai de um braço que abraça pra beijar de cara o chão? A menina levanta. Pede um gelo na barraca. Passa no ombro, joelho e mãos. O coração não alcança. Esse cura sozinho. Grande madureza. Pega a bicicleta e pedala. Na próxima queda se prepara. Joelheira, capacete e luva na mão. É necessário se fazer laranja madura, doce. Mas com prudência, pensa.
Domingo, 13 de Março de 2011
a beleza
A beleza está na maneira como as pessoas ocupam o espaço. Ele repetia isso inúmeras vezes. Eram nove e meia de uma sexta-feira em um bar qualquer da Lapa. Talvez qualquer para mim, mas para uns outros tantos que por ali se mostravam mais belos pela familiaridade com o local, talvez fosse o Bach, como o cantado pela letra do bloquinho que ano que vem já quase vira tradição nessa vida de informações breves e acontecimentos passageiros.... onde outro dia um alguém disse pra mim que o tempo nada importa em certas relações, e que há momentos que acontecem para além do Tempo... não, não era bem isso... mas poderia ter sido... O sujeito que repetia a frase da beleza por fim considerou-as duas: uma tal momentânea, do senso comum e, essa outra, que tem a ver com o espaço. Hoje por volta das 22h30, depois de me esparramar feito ameba no sofá, veio a frase, saída de outra boca: a apropriação do espaço determina um lugar... ou algo assim... ali fiquei esparramada, fincando moradia secundária no sofá, numa ocupação nem de longe bela, num momento que em nada ficará depois do tempo passar (talvez agora que foi dito), em nada parecido as Certas relações, que criam lugares em tempos outros... por apropriarem-se de formas belas de ocupar os espaços alheios e, que alguém, vez ou outra, vai visitar.... Durmo, querendo visitá-los em sonhos.
Domingo, 27 de Fevereiro de 2011
notícias portuguesas 01
Ali, era uma cidades onde o silêncio habita e a solidão impera. As pessoas já não ficavam mais, como folha em árvore que voa pra adubar outras terras. Sobravam só cinco troncos antes da árvore morrer por completo. Era dona Madalena, um casal, Dona Francisca, viúva e Seu Eusébio que moravam naquele conjunto de pedras em cima do morro. Nasceram e se criaram ali, todos frequentavam a igreja do Padre Zeca que há tempos foi tocar outros sinos. Estavam feito oásis no deserto, raridades em meio ao enorme vazio. Qualquer novidade era segredo, porque não tinham com quem compartilhar. Um dia três estalidos fizeram com que hoje, naquele conjunto de casas de pedra, morem apenas duas mulheres. Sem mais a música tradicional, sem mais o sino da igreja, nem criança, sem mais nada, uma alterna a visitância com a outra, e inventam conversa com as plantas para ter assunto no dia seguinte. Guardavam um segredo, não por que quisessem mas porque Ali era assim, até que o Censo, 2 meses depois do sucedido, resolveu bater na cidade. As duas, amigas por força da ausência, nem mexeram no acontecimento, na altura se fizeram de joanas sem braço, enquanto que uma lágrima escorria pelo desespero de se saberem ainda mais sós. Foi um homem e mais duas cabeças, ele atirou certeiro e reduziu aquela cidade a menos da metade de seus habitantes. Matou o casal e depois a si próprio. O Censo chegou, estavam todos, misturados às moscas e mau cheiro. Registrou o sucedido e anotou que a população Ali, contava com mais mortos do que vivos.
notícias portuguesas
Dona Eraldina vivia num apartamento 5º B. Não tinha filhos e dos sobrinhos sem notícias, nem eles dela. Pitu, seu cachorro, era silencioso. E os dois não eram conhecidos de quase ninguém a não ser deles próprios. Da vizinha do lado, do 5º A, conhecia o cumprimento, e isso era suficiente para lembrar da fala. Um primo semana sim e duas não passava por casa para deixar um abraço e reavivar alguma infância. Eraldina era assim. Vida simples de descer escada, atravessar a rua, ir ao supermercado e mais nada. Palavras poucas e o som do rádio. Cozinhava com gosto, só para ela. E arrumava a casa como se recebesse visitas. Era ela e a sua própria companhia. Conversava com o apresentador da televisão no programa da tarde e tudo isso bastava para preencher seus dias. Um dia, foi notícia. Abriram sua casa, arrumada para enfim uns visitantes. Eraldina estava na cozinha. Pitu ao seu lado, com a fuça na pele dela. A causa da visita foi atraso no imposto. Nem a campainha a companhia tocou. Foi logo entrando. E o cheiro que vinha lá de dentro era de carne, carne apodrecida. Nove anos em espera por alguém que se lembrasse dela. Eraldina caída no chão da cozinha. Sem mais rosto. A vizinha do 5º A ainda disse que tocou a campainha inúmeras vezes por não ter mais ninguém pra cumprimentar, mas ninguém dá ouvidos aquilo que se acha sem importância. E o primo nesse meio tempo desisitiu do tanto sumiço. Depois de Eraldina uns outros tantos foram encontrados largados no chão de suas casas, fazendo do chão de cimento a terra para se enterrar. E no radinho, dizem que tocava uma música vinda do além-mar que diz que no mundo "há tanta gente sozinha que a gente nem adivinha". E depois de muitos anos de espera, o apresentador do programa de depois do meio-dia notou que Eraldina um dia exisitiu, e falou com ela. Que descanse em paz, foram as palavras dele.
Terça-feira, 6 de Abril de 2010
só farelo
O carro passa ao lado. Das janelas saem fuzis. No banco de trás ele olha para cima com todo o orgulho de ser o que é. Na frente vão dois. Janela aberta. O carro passa silencioso apesar da pose.
No banco triplo, o joelho não cabe, a perna dobra feito garça, mas não tem graça. Hoje foi o trocado do pão na saída da padaria. O caco de vidro ameaçou o pescoço. A saída foi em disparada. O senhor com três paezinhos teve tempo para o grito. Pega, pega. O menino já foguete virou a direita e alguém cometa o pegou. Pela gola da blusa furada do candidato 1444, o pessoal resolveu fazer justiça. O policial estava passando ao acaso, na mão o pão. No rosto impaciência. Vai para o carro, sem algema, sem vidro, um caco. Na barriga o vácuo.
Na delegacia terceira ficha. É menor. Uma vez foi 5, outra vez celular e agora 3 reais e migalhas. Ele olha para baixo, da vida só farelo, 3 meses ou um ano, pouco importa.
No banco triplo, o joelho não cabe, a perna dobra feito garça, mas não tem graça. Hoje foi o trocado do pão na saída da padaria. O caco de vidro ameaçou o pescoço. A saída foi em disparada. O senhor com três paezinhos teve tempo para o grito. Pega, pega. O menino já foguete virou a direita e alguém cometa o pegou. Pela gola da blusa furada do candidato 1444, o pessoal resolveu fazer justiça. O policial estava passando ao acaso, na mão o pão. No rosto impaciência. Vai para o carro, sem algema, sem vidro, um caco. Na barriga o vácuo.
Na delegacia terceira ficha. É menor. Uma vez foi 5, outra vez celular e agora 3 reais e migalhas. Ele olha para baixo, da vida só farelo, 3 meses ou um ano, pouco importa.
Quarta-feira, 22 de Julho de 2009
João de Barro

Desde cedo está ali. Passa o dia com os pés no ar sentado na sua cadeirinha. Na frente parede branca ou bege, vai do gosto do freguês. Atrás o céu azul devora. Em baixo a vida que parece maquete.
Ele vai todo dia feito pássaro, sem árvore. Trabalha só. É quase invisível. As pessoas só o percebem quando abrem a janela e lá está, feito um pombo sujo sentado na sua ripa de madeira, com a lata ao lado. Elas ignoram como aos pombos, fecham a janela para evitar contato. Ele não liga, trabalha com isso não é de hoje.
Às vezes na pausa não desce. Sobe com a lata, pincel e marmita. E se põe ao contrário. Olhando o céu que lhe é tão próximo. Lá em baixo a insignificância das pessoas. São como formiguinhas que são milhões, e vistas dali, são todas operárias. Passando num passo apressado de um lado ao outro, de maneira aparentemente ordenada.
Ali de cima ele se sente ave. Livre, mas sem vôo rasante. Sente a tranquilidade do silêncio e o vento que bate de leve e movimenta a corda que o sustenta. O sol por vezes castiga. Não tem toldo nem sombra para se esconder. Ele quer árvore com sombra e com galho. Árvore com folha e com flor. Ele é pássaro sem ninho. No chão não reconhece moradia. Mas amanhã voa, e ele que era só João vira João de Barro.
copo vazio
Foi triste como tudo começou. Era puro descontentamento. Estava mais pesada do que o normal, mais feia do que queria e com isso se fechou.
Há dias que havia tomado a decisão. Queria mudar, mas não sabia como, nem por onde começar, então há dias que se olhava no espelho, procurando se memorizar… fez várias fotos. De todos os ângulos. Das costas, de lado, de frente. Parava petrificada no espelho. Não acreditava no que via. A cada dia crescia mais de um milímetro. Ela acompanhava, quase como que vendo o crescimento. O movimento da pele de esticar, um pouquinho a cada segundo.
Às vezes parava horas em frente ao espelho. E ali ficava em pé… a olhar. Comprou uma lupa para acompanhar o movimento. Seu próprio movimento que ela não controlava. E crescia um centímetro por semana. Ela começou a observar. A se observar vinte e quatro horas por dia. O seu próprio movimento. Era a pele que ia abrindo sulcos. Pequenos sulcos. E ela calculava. Daqui dois anos vira uma ruga. Pára estática. Petrificada, queria se conservar com formol. Queria ser pedra, que diminui com o tempo. Mas crescia mais de um milímetro a cada dia. E os fios acompanhavam. Todos. E ela olhava com lupa, na raiz. E via, como uma onda, milhares de fios se movimentando, minimamente, todos juntos.. crescendo.
E ela ia se observando nos pormenores. No atrás da orelha e dentro do umbigo…crescendo, cada vez mais fundo. Com o passar dos anos virou enorme. As rugas eram dobras, e o cabelo já ia nas ancas. Era uma figura estranha. Só comia e se olhava. E crescia. O pé já calçava 42, e as roupas de meio ano atrás não cabiam. Ela ia virando massa de pão. E ia se contorcendo na busca dos pormenores. Era dobra que entrava em dobra. Como uma cobra gorda que se enrosca em si mesma. Se transformou em massa. A cabeça já se confundia com a barriga. E ela só olhava o próprio umbigo. Era a única dona do seu nariz, perdido no meio da massa.
A boca já não abria, já não se encontrava. Ela devorava a si própria. As mãos faziam o reconhecimento do próprio corpo, massa disforme. E ela que já foi gente agora era pão cru, pronto para ir ao forno.
Viu as fotos que fez de si própria, antes de se fechar num casulo, do qual ela era verdadeira lesma. Nas fotos a imagem era de alguém nem bonita, nem feia e nem triste, nem feliz. Alguém que tinha forma. E quis ser algo, algo verdadeiramente bonito. Rolou para um lado e para o outro. Se apalpou brincando de massinha com o próprio corpo e se ergueu casa. Simples porém bonita, com porta e janela, se fez oca por dentro, abraçando o grande vazio que dela fez moradia.
Há dias que havia tomado a decisão. Queria mudar, mas não sabia como, nem por onde começar, então há dias que se olhava no espelho, procurando se memorizar… fez várias fotos. De todos os ângulos. Das costas, de lado, de frente. Parava petrificada no espelho. Não acreditava no que via. A cada dia crescia mais de um milímetro. Ela acompanhava, quase como que vendo o crescimento. O movimento da pele de esticar, um pouquinho a cada segundo.
Às vezes parava horas em frente ao espelho. E ali ficava em pé… a olhar. Comprou uma lupa para acompanhar o movimento. Seu próprio movimento que ela não controlava. E crescia um centímetro por semana. Ela começou a observar. A se observar vinte e quatro horas por dia. O seu próprio movimento. Era a pele que ia abrindo sulcos. Pequenos sulcos. E ela calculava. Daqui dois anos vira uma ruga. Pára estática. Petrificada, queria se conservar com formol. Queria ser pedra, que diminui com o tempo. Mas crescia mais de um milímetro a cada dia. E os fios acompanhavam. Todos. E ela olhava com lupa, na raiz. E via, como uma onda, milhares de fios se movimentando, minimamente, todos juntos.. crescendo.
E ela ia se observando nos pormenores. No atrás da orelha e dentro do umbigo…crescendo, cada vez mais fundo. Com o passar dos anos virou enorme. As rugas eram dobras, e o cabelo já ia nas ancas. Era uma figura estranha. Só comia e se olhava. E crescia. O pé já calçava 42, e as roupas de meio ano atrás não cabiam. Ela ia virando massa de pão. E ia se contorcendo na busca dos pormenores. Era dobra que entrava em dobra. Como uma cobra gorda que se enrosca em si mesma. Se transformou em massa. A cabeça já se confundia com a barriga. E ela só olhava o próprio umbigo. Era a única dona do seu nariz, perdido no meio da massa.
A boca já não abria, já não se encontrava. Ela devorava a si própria. As mãos faziam o reconhecimento do próprio corpo, massa disforme. E ela que já foi gente agora era pão cru, pronto para ir ao forno.
Viu as fotos que fez de si própria, antes de se fechar num casulo, do qual ela era verdadeira lesma. Nas fotos a imagem era de alguém nem bonita, nem feia e nem triste, nem feliz. Alguém que tinha forma. E quis ser algo, algo verdadeiramente bonito. Rolou para um lado e para o outro. Se apalpou brincando de massinha com o próprio corpo e se ergueu casa. Simples porém bonita, com porta e janela, se fez oca por dentro, abraçando o grande vazio que dela fez moradia.
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